Como aquela dor que vem no piano quando na cena em que desabam as gotas dos olhos as pessoas sussurram palavras de súplica, me sinto nesse estado, por todos esses meses em que passamos "juntos". Queria eu poder te entender, nunca pude, nunca consegui, tentativas em vão, busquei soluções, apelos ao tempo, secretas promessas de deixar o tumulto passar, deixar as águas correrem, enquanto me consumias com palavras turvas, me alimentavas com gotas de lágrimas, lágrimas que nunca vi, ouvi falar, nada mais. Tua dor que inicialmente não querias compartilhar comigo, com ou sem vontade atual, continua não compartilhada. Sinto-me só, preso em ti, como se tivesses me roubado pro teu mundo, onde não reside ninguém, nem tu próprio. Vagas mais pela casa de teus amigos, teus colegas que nunca falam, nunca vivem. Embora teu tempo seja curto, tuas esperanças são grandes, tua vontade de sair pra longe de todos esses problemas familiares é tão grande que só vais até a esquina com medo que te falem mal. Meu instinto selvagem não aguenta tanta repressão, tanta boca costurada, tanto dedo cortado e moscas zanzando pelo meu anarquismo morto. Só queria correr, e ter alguém pra fazer isso junto, sou horrível pra vivermos essa escolha, esse repulso social. Meus instintos proclamam os dias em que serei sorridente com tão pouco no bolso e o coração pesado de tanto sangue a bombear. Não tenho criatividade, tão pouco qualidades artísticas, mas uma alma de forasteiro que me inquieta o sentar mortificado. Preciso suar e usufruir das cores que tem atrás da porta, preciso quebrar as correntes e criar calos nos olhos, ver de tudo e viver o que for bom, preciso incessantemente me quebrar, preciso de tortura e dor massificante. Mesmo sendo ruim a dor, será ao correr e tropeçar em sorrisos alheios, correrei feliz, caminharei sobre os troncos de vidro e ao mesmo tempo gargalharei sobre as hipocrisias, precisarei viver me rasgando os braços e dilacerando meu sentimento, é preciso viver, e morrer nesse caso em que somos, seria suicídio, e por mais que admire suicidas, não busco no momento tal fechamento celeste. Conchegue-se mais em amores silenciosos e pouco frequentes, onde se encontrem somente aos finais de semana, porque isso que sou precisa de mais, de mais tempo, de maior preocupação. Preciso de pés que caminhem, de pedidos que correspondam, de vontades impetuosas de estar, de ventos violentos ao nascer, precisamos correr, somos jovens, precisamos usar de nossos hormônios, precisamos amar como se não houvesse amanhã, precisamos acalentar nosso ser velho na vitrola e suspirar o novo que já se vai ao raiar do sol, e quando formos observar, será só escuridão e tudo que poderia ser, não foi, e o que foi não passou de tempo perdido.
"Preciso de pés que caminhem, de pedidos que correspondam, de vontades impetuosas de estar, de ventos violentos ao nascer[..]" Isso é perfeito, moço!
ResponderExcluirNão pare nunca de descrever o sentimento dos outros através dos seus.