Se eu for mesmo um adolescente em crise como todos os outros, me dou dois anos pra escapar desse presídio. Caso contrário, como humano escrevo isso...
Residem aqui seres ficcionados por uma novela, eu perambulei pela casa antes de conseguir escrever, os observei pela sombra, não tive coragem de olhar aos olhos e não sentir repulsa, antes de ir embora ela perguntou se eu iria junto, e mais uma vez, por mais uma noite eu neguei, recusei, e então ela se foi, mas enquanto ela caminha rumo ao sono do ar fresco, escrevo revoltado esse recado, um recado pra ninguém.
Residem aqui pele, olhos e boca, já não falo deles, falo de verdadeira pele, olhos e boca, isso como sentir, ver e amar. E esse sentir aguça-se nessa noite de crise, onde depois de um show de rock carimbó volto pra casa ao som do vento estripador com cheiro de peixe na beira do rio, voltei e retornei pro cômodo onde a pele dorme, defeca e urina. Se quiseres, podes pular essa parte, alguém...
Reside na frente da minha casa, a coisa que primeiramente me fez começar a escrever esse texto - que também já chamei de recado -, essa coisa exótica, não pelo que é, mas pelo que se tornou, um talvez Chevrolet sem rodas, pneus e vidraças, ou melhor, é só uma carcaça onde um garoto se embalança, levando a parte mais deteriorada da frente aos ares do sobrevoo. Me faz rir, não me cura, me faz gozar e não me mata, já não falo do Chevrolet, já não falo, minha noite se calou e eu anoiteci.
Não procuro mais, moça bonita, futuros dialéticos, pessoas felizes, bom filme, as palavras não fazem sentido, nem o infinitivo faz menção - não param de cantar a música da novela -, nem o finito me convence, estou tão desacreditado, tão desestimulado, tão desenfreado nesse meu pessimismo, não sei até quando vou aguentar, não sei se dois anos serão necessários, não sei se completarei dois anos, só se renascer, mas renascer não basta, preciso renascer diferentemente e sem o renascimento, agora, o que sou, me odiaria renascendo em outro, sou eu mesmo torrencialmente triste, sem uma lágrima, porém, pesadamente amargurado.
''Não procuro mais, moça bonita, futuros dialéticos, pessoas felizes, bom filme, as palavras não fazem sentido, nem o infinitivo faz menção - não param de cantar a música da novela -, nem o finito me convence, estou tão desacreditado, tão desestimulado, tão desenfreado nesse meu pessimismo...''
ResponderExcluirAcho que a gente deveria alugar nossos ombros, simultaneamente. O meu pras tuas lágrimas de conformismo e os teus pro meu choro preso por motivos similares.
às vezes eu venho aqui e fico esperando saber de ti.